A Dra. Daniela Simões, Psicóloga Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, fala sobre a fase do luto, pois os Cuidados Paliativos não encerram a sua ação no momento da morte do doente.

Os Cuidados Paliativos não encerram a sua ação no momento da morte do doente. Ela prolonga-se na fase de luto.

O luto é definido como um conjunto de reações emocionais, físicas, comportamentais e sociais que surgem em resposta a uma perda, seja real ou fantasiosa, seja por morte ou por cessação/diminuição de uma função possibilidade ou oportunidade. O luto é também um processo existencial.

Ele tem um período anterior a que chamamos luto antecipatório, que pode acontecer no tempo de consciência da doença grave, que está em progressão, onde a Pessoa experiência a possibilidade de perder aquele que ama.

Experienciar as perdas em Cuidados Paliativos é inevitável. Ainda antes do desaparecimento físico do doente, já família experiência um conjunto de perdas que se associam ao percurso do seu familiar: perda da noção de que se é saudável, da noção de intemporalidade, de capacidade física, laboral e de perdas cognitivas eventualmente, além da perda do papel que o doente tinha na família.

São vários os autores que se têm dedicado a elaborar teorias explicativas deste processo e há diversos modelos que contribuem para a compreensão e evolução do processo de luto. Destacamos entre eles os modelos de fases, estádios e transições psicossociais e de tarefas. Este último assenta em 4 tarefas:

  1. Aceitar a realidade da perda.
  2. Trabalhar as emoções e a dor da perda.
  3. Adaptar-se a um ambiente em que o falecido está ausente.
  4. Recolocar emocionalmente o falecido e prosseguir com a vida.

Para Worden existe um leque bastante diversificado de comportamentos normais no luto que podem ser descritos e divididos em 4 categorias:

  • sentimentos
  • sensações físicas
  • cognições
  • comportamentos

O luto constitui-se assim uma experiência universal à qual a maioria das Pessoas se adapta adequadamente.

Contudo o processo de luto pode não seguir um curso normal, complicando-se e produzindo alterações importantes na vida das Pessoas que o experienciam. Várias são as designações para o definir, nomeadamente luto complicado, patológico ou anormal, traumático entre outras.

Existem situações em que a Pessoa em luto sente que o processo de luto segue um curso anormal, pois interfere notoriamente no seu funcionamento global.

Deve realçar-se que ao utilizarmos o termo “luto apropriado ou desapropriado”, saindo do tradicionalismo “normal/anormal”, estamos perante um novo olhar do processo de luto, respeitando verdadeiramente a idiossincrasia deste processo.

Mais do que a valorização das reações normais ou anormais de uma população com determinado padrão expectável de funcionamento, é fundamental perceber se o comportamento de determinada Pessoa apresenta no processo de luto, vai ou não no seguimento do seu padrão habitual do seu funcionamento psicológico.

A avaliação de um hipotético luto complicado, deve assim ter em conta uma análise cuidada do funcionamento psicológico do individuo, prévio à perda.

Existe um leque variado de possibilidades de linhas orientadoras, técnicas e estratégias úteis para a intervenção em luto. Contudo é fundamental uma necessária formação adequada dos técnicos, para que as mesmas tenham a eficácia pretendida, quer nas intervenções com adultos, quer sobretudo com crianças.

O luto, não sendo doença, pode muitas vezes fazer sofrer mais do que determinada doença, dai que as Pessoas em luto devam ser alvo de uma especial intervenção pelos serviços de saúde.

Bibliografia:
Salazar, H. ; Paulino, M. (2017). Intervenção Psicológica em Cuidados Paliativos. Pactor – Edições de Ciências Sociais, Forenses e da Educação. Lisboa

 

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